Saúde como benefício estratégico: por que ampliar o acesso exige ir além do modelo tradicional
A violência contra a mulher permanece como um dos desafios sociais e de saúde mais graves do Brasil. O Agosto Lilás, instituído nacionalmente pela Lei nº 14.448/2022, dedica o mês à proteção das mulheres e à conscientização pelo fim da violência, incentivando ações de informação, prevenção e mobilização da sociedade.
Em 2026, a campanha ganha um significado adicional: a Lei Maria da Penha completa 20 anos desde sua sanção, em 7 de agosto de 2006. Duas décadas depois de estabelecer um dos principais marcos legais brasileiros de enfrentamento à violência doméstica e familiar, os dados mais recentes mostram que o país ainda enfrenta um cenário preocupante — e que informação, acesso às redes de proteção e capacidade de reconhecer diferentes formas de violência continuam sendo fundamentais.
Para a ABCS, entidade inserida em um ecossistema comprometido com a ampliação do acesso e do cuidado, falar sobre o tema significa reconhecer que saúde não se limita ao tratamento de doenças. Segurança, integridade física e emocional, autonomia e possibilidade de buscar ajuda também fazem parte das condições necessárias para uma vida saudável.
Os números mostram por que ainda precisamos falar sobre violência
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a urgência do problema. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, o maior número da série histórica iniciada após a tipificação do crime, em 2015, e crescimento de 4,7% em relação a 2024. Desde então, pelo menos 13.703 mulheres foram vítimas de feminicídio no país.
O cenário se torna ainda mais significativo quando são consideradas as violências que não chegam ao desfecho letal. Na edição mais recente da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Datafolha, 37,5% das mulheres entrevistadas relataram ter vivenciado alguma forma de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa. A estimativa corresponde a aproximadamente 21,4 milhões de brasileiras com 16 anos ou mais.
Há ainda uma dimensão particularmente difícil de enfrentar: o silêncio. Na mesma pesquisa, quase metade das entrevistadas — 47,4% — declarou não ter feito nada após a agressão mais grave sofrida. O dado ajuda a mostrar por que a resposta à violência não pode depender exclusivamente da iniciativa da vítima e reforça a importância de redes de acolhimento, informação acessível e ambientes nos quais as mulheres se sintam seguras para procurar ajuda.
Violência contra a mulher também produz impactos sobre a saúde
A violência pode assumir diferentes formas e suas consequências não estão restritas às agressões físicas. A legislação brasileira reconhece, no contexto doméstico e familiar, violências física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, dimensões que podem se sobrepor e permanecer presentes durante longos períodos da vida de uma mulher.
Por isso, olhar para o enfrentamento da violência também sob a perspectiva da saúde é essencial. A exposição a situações de violência pode estar associada a lesões, sofrimento emocional, alterações no sono, ansiedade, depressão e outros impactos que demandam acompanhamento adequado. Em determinadas situações, o serviço de saúde pode inclusive representar um dos primeiros pontos de contato da vítima com uma rede capaz de reconhecer sinais de violência e orientar a busca por proteção.
Essa realidade reforça uma concepção mais ampla de cuidado. Acesso à saúde também significa encontrar espaços preparados para acolher, orientar e encaminhar, respeitando a privacidade, a autonomia e as circunstâncias de cada mulher.
Reconhecer a violência é parte do enfrentamento
Nem toda violência deixa marcas visíveis. Controle sobre dinheiro, ameaças, humilhações recorrentes, isolamento de familiares e amigos, coerção sexual, perseguição e destruição de bens são exemplos de comportamentos que podem integrar relações abusivas, embora nem sempre sejam reconhecidos imediatamente como violência.
É justamente nesse ponto que campanhas como o Agosto Lilás cumprem uma função importante. Ao ampliar a circulação de informações sobre as diferentes formas de violência e sobre os mecanismos existentes para buscar proteção, a campanha contribui para que vítimas, familiares, colegas e pessoas próximas tenham melhores condições de identificar situações de risco.
O próprio marco legal da campanha estabelece que agosto deve mobilizar ações intersetoriais de conscientização e esclarecimento, inclusive para informar como cada pessoa pode contribuir para o enfrentamento da violência contra a mulher. Isso coloca a questão para além das instituições públicas: combater a violência exige participação de toda a sociedade.
Empresas também fazem parte da rede de proteção
A violência doméstica acontece predominantemente no ambiente privado, mas seus impactos atravessam os limites da residência. Eles podem chegar ao trabalho por meio de faltas, afastamentos, queda de concentração, mudanças comportamentais, dificuldades financeiras ou situações nas quais o próprio agressor procura controlar ou perseguir a mulher também em sua atividade profissional.
Isso torna o ambiente corporativo um espaço relevante para conscientização e acolhimento. Não significa transformar gestores ou profissionais de Recursos Humanos em investigadores, tampouco exigir que a mulher exponha uma situação que deseja manter privada. Significa construir condições para que, quando uma colaboradora precisar de ajuda, saiba que existem caminhos seguros e confidenciais para buscá-la.
Políticas claras, preparação das lideranças, canais de acolhimento, comunicação sobre redes públicas de proteção e atenção à confidencialidade podem integrar essa atuação. Da mesma forma, os benefícios oferecidos pelas organizações podem contribuir ao facilitar o acesso a serviços de saúde física e mental, orientação e outros recursos de suporte.
O papel da empresa não é substituir os serviços especializados. É compreender que saúde corporativa e proteção das pessoas se encontram quando o ambiente de trabalho oferece informação, respeito e condições adequadas para que situações de vulnerabilidade não sejam simplesmente ignoradas.
Vinte anos da Lei Maria da Penha: avanços que precisam continuar
A campanha deste ano coincide com duas décadas da Lei nº 11.340/2006. Ao longo desse período, a Lei Maria da Penha consolidou mecanismos de prevenção e proteção e tornou mais visíveis diferentes formas de violência doméstica e familiar.
Esse marco continua evoluindo. Em maio de 2026, uma alteração legislativa ampliou expressamente as situações que podem fundamentar o afastamento imediato do agressor, passando a considerar risco atual ou iminente não apenas à vida e à integridade física e psicológica, mas também às integridades sexual, moral e patrimonial da mulher ou de seus dependentes.
Ainda assim, legislação e mecanismos de proteção precisam chegar efetivamente às mulheres que deles necessitam. Os números recentes de feminicídios e outras formas de violência mostram que os avanços normativos precisam caminhar ao lado de prevenção, educação, acesso aos serviços especializados e fortalecimento das redes de proteção.
Informação pode abrir caminhos para o cuidado e a proteção
Uma das barreiras enfrentadas por mulheres em situação de violência é justamente não saber onde procurar ajuda ou não reconhecer que determinada situação constitui violência. Por isso, disseminar informações confiáveis não é uma ação secundária: informação pode representar o primeiro passo para interromper um ciclo de violência.
O Agosto Lilás existe para ampliar essa conscientização durante todo o mês, mas sua mensagem precisa permanecer ativa ao longo do ano. Instituições públicas, empresas, entidades representativas, profissionais de saúde e sociedade têm responsabilidades diferentes, porém complementares, na construção de ambientes mais seguros.
Para a ABCS e para as organizações que integram o setor de cartões de saúde e benefícios, participar dessa conversa também significa reforçar uma visão de saúde baseada em acesso, acolhimento e cuidado integral. Quanto mais preparada estiver a sociedade para reconhecer situações de violência e orientar corretamente quem precisa de apoio, maior será a capacidade coletiva de transformar conscientização em proteção.
Enfrentar a violência contra a mulher não é responsabilidade apenas de quem sofre a violência. É um compromisso de toda a sociedade. E o Agosto Lilás nos lembra que nenhuma política de promoção da saúde pode estar verdadeiramente completa sem considerar o direito das mulheres a viver com segurança, dignidade e liberdade.










