Benefício disponível não é benefício acessível: o novo desafio da experiência em saúde
As empresas brasileiras nunca tiveram tantas possibilidades para compor suas estratégias de saúde e bem-estar. Planos médico-hospitalares, assistência odontológica, cartões de saúde e benefícios, teleatendimento, programas de saúde mental, academias, acompanhamento nutricional e diferentes iniciativas preventivas passaram a coexistir em pacotes cada vez mais amplos.
Mas essa evolução trouxe um novo desafio. Oferecer uma solução não significa necessariamente garantir que as pessoas consigam utilizá-la. Entre a existência formal de um benefício e sua utilização efetiva há uma jornada composta por comunicação, compreensão, disponibilidade, conveniência, custo e experiência — e qualquer barreira nesse percurso pode reduzir significativamente o valor percebido pelo usuário.
Essa discussão ganha relevância à medida que os benefícios em saúde assumem uma dimensão cada vez maior dentro das organizações. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), atualizados até junho de 2026, mostram que o Brasil alcançou 53,1 milhões de beneficiários de planos de assistência médica, dos quais aproximadamente 38,9 milhões estavam vinculados a contratos coletivos empresariais. Nos planos exclusivamente odontológicos, outros 27,5 milhões de beneficiários estavam em contratos empresariais.
Em um mercado dessa dimensão, a próxima fronteira da gestão de benefícios não está apenas em ampliar a oferta. Está em diminuir a distância entre aquilo que está disponível e aquilo que efetivamente se transforma em acesso ao cuidado.
Existe uma diferença importante entre cobertura e acesso
Uma pessoa pode possuir determinado benefício e ainda encontrar dificuldades para utilizá-lo. A rede pode não estar disponível perto de sua residência ou trabalho, o agendamento pode ser complexo, o usuário pode desconhecer determinadas possibilidades ou simplesmente não compreender como acessar corretamente os serviços oferecidos.
Por isso, cobertura e acesso não devem ser tratados como sinônimos. A cobertura informa quais serviços ou condições estão disponíveis dentro de determinado modelo. O acesso começa quando essa disponibilidade consegue se converter em uma possibilidade real de utilização.
Essa diferença parece simples, mas tem implicações relevantes para a gestão. Uma organização pode ampliar significativamente seu pacote de benefícios e, ainda assim, manter problemas relacionados à adesão, percepção de valor ou utilização inadequada.
O desafio passa a ser compreender a experiência completa: o colaborador sabe que possui o benefício? Entende sua finalidade? Consegue localizar o serviço de que precisa? Há disponibilidade compatível com sua rotina? Sabe quanto pagará? Consegue navegar entre diferentes soluções quando uma delas não atende àquela necessidade?
São perguntas que deslocam a discussão da quantidade de benefícios para a qualidade da jornada de acesso.
Mais benefícios também podem significar mais complexidade
A diversificação dos pacotes corporativos é uma resposta importante às diferentes necessidades da força de trabalho. Entretanto, à medida que novas soluções são adicionadas, aumenta também a quantidade de informações que o colaborador precisa compreender.
A Pesquisa de Benefícios da Mercer Marsh Benefícios, que reúne informações de mais de mil empresas brasileiras, inclui entre os desafios atuais justamente as estratégias de comunicação dos benefícios e a avaliação da maturidade dos programas de saúde e bem-estar.
Esse ponto merece atenção porque a complexidade pode criar um paradoxo: uma empresa amplia seu investimento para oferecer mais possibilidades, mas parte delas permanece subutilizada porque os colaboradores não sabem quando, por que ou como utilizá-las.
Não basta, portanto, comunicar uma vez no momento da contratação ou disponibilizar uma relação de serviços em um portal interno. A comunicação precisa acompanhar a jornada do benefício, ajudando o usuário a reconhecer necessidades e identificar quais recursos estão disponíveis para cada situação.
Uma pessoa que procura um exame preventivo possui uma necessidade diferente daquela que busca atendimento psicológico, acompanhamento odontológico ou uma consulta de baixa complexidade. A comunicação torna-se mais efetiva quando consegue conectar essas necessidades concretas às soluções existentes.
O benefício precisa fazer sentido para diferentes pessoas
Outro desafio é reconhecer que a força de trabalho não constitui um grupo homogêneo. Idade, renda, composição familiar, localização, rotina profissional, condições de saúde e familiaridade com ferramentas digitais influenciam diretamente a forma como cada pessoa percebe e utiliza os benefícios disponíveis.
É justamente por isso que a flexibilidade aparece com crescente frequência nas discussões sobre benefícios corporativos. A Pesquisa de Benefícios Aon 2025 identificou um descompasso entre o interesse dos colaboradores por maior possibilidade de escolha e a capacidade das organizações brasileiras de modernizar suas arquiteturas de benefícios.
A resposta não necessariamente está em permitir personalização irrestrita. Está em compreender que relevância depende de contexto.
Uma solução altamente valorizada por determinado grupo pode ter pouca utilização por outro. Um atendimento exclusivamente digital pode representar conveniência para parte dos colaboradores e uma barreira para outros. Uma ampla rede nacional pode parecer suficiente nos indicadores gerais, mas apresentar lacunas justamente nas localidades em que determinados trabalhadores vivem.
Quanto mais diversa é a população atendida, maior é a importância de combinar diferentes caminhos de acesso.
Conveniência também passou a fazer parte do cuidado
Durante muito tempo, conveniência foi tratada como atributo secundário em saúde. Entretanto, uma solução que exige deslocamentos longos, processos complexos ou horários incompatíveis com a rotina pode gerar uma barreira concreta ao cuidado.
Isso é particularmente importante quando falamos de prevenção. Adiar uma consulta de rotina ou um exame porque o acesso é difícil pode parecer uma decisão pequena individualmente, mas, em escala, revela um problema relevante na jornada.
A Pesquisa Nacional de Saúde, cuja nova edição está sendo realizada pelo Ministério da Saúde e pelo IBGE em 2026, investiga justamente questões relacionadas às condições de saúde, fatores de risco e acesso da população aos serviços de saúde, demonstrando a importância desse componente para compreender a situação sanitária brasileira.
Facilitar o cuidado, portanto, não significa apenas digitalizar processos. Significa reduzir fricções: tornar informações compreensíveis, facilitar a localização dos serviços, proporcionar diferentes canais e criar jornadas compatíveis com a realidade das pessoas.
A experiência também influencia a percepção de valor
Benefícios corporativos possuem uma característica particular: frequentemente representam investimentos significativos para a organização, mas parte desse investimento pode permanecer praticamente invisível para quem o recebe.
Isso acontece quando o colaborador desconhece os serviços disponíveis, enfrenta dificuldades recorrentes ou só se lembra do benefício quando surge uma necessidade urgente. Nesse cenário, existe uma distância entre valor financeiro oferecido pela empresa e valor percebido pelo usuário.
Reduzir essa distância exige observar a experiência de forma mais ampla. Indicadores de utilização são importantes, mas precisam ser acompanhados por informações sobre satisfação, dificuldade de acesso, conhecimento dos serviços, recorrência, resolução das demandas e abandono das jornadas.
Uma taxa baixa de utilização, isoladamente, não diz se determinado benefício é desnecessário. Pode significar simplesmente que poucas pessoas sabem que ele existe. Da mesma forma, utilização elevada não necessariamente representa uma experiência positiva.
É a combinação dos indicadores que permite entender o que realmente está acontecendo.
Sustentabilidade também depende de utilização inteligente
Essa discussão se torna ainda mais importante diante da pressão sobre os custos de saúde. O relatório Health Trends 2026, da Mercer Marsh Benefícios, realizado com 268 seguradoras em 67 mercados, aponta expectativa de crescimento de dois dígitos nos custos médicos na maioria dos mercados em 2026. Entre os fatores estão aumento da utilização, maior incidência de doenças e incorporação de tecnologias mais avançadas.
A resposta sustentável não está necessariamente em restringir o acesso. Pelo contrário: uma arquitetura bem estruturada pode direcionar diferentes necessidades para soluções adequadas, evitando que todos os tipos de demanda percorram exatamente o mesmo caminho.
Consultas de menor complexidade, acompanhamento preventivo, saúde bucal, saúde mental e outras necessidades podem encontrar diferentes portas de entrada dentro de um ecossistema de benefícios.
É nesse ponto que soluções complementares ganham relevância. Quando possuem proposta claramente definida e são corretamente comunicadas, podem ampliar alternativas de acesso e ajudar usuários a encontrar caminhos compatíveis com suas necessidades.
Para isso, é indispensável preservar a transparência sobre a natureza de cada serviço. Cartões de saúde e benefícios, por exemplo, possuem características diferentes de planos de saúde e devem ser apresentados de forma clara, permitindo que o consumidor compreenda exatamente o que está utilizando.
RH precisa deixar de perguntar apenas “quantos usam?”
A evolução da gestão de benefícios exige também uma mudança nos indicadores acompanhados pelas organizações.
Quantas pessoas utilizaram determinado serviço continua sendo uma informação importante, mas não deveria ser a única. Quem não utiliza e por quê pode ser uma pergunta ainda mais reveladora.
É possível analisar, por exemplo, diferenças de adesão por região, faixa etária ou perfil familiar; identificar serviços com alta procura e baixa continuidade; avaliar quais canais facilitam o acesso; acompanhar satisfação e observar quais soluções são utilizadas de maneira complementar.
Essa inteligência permite que as organizações tomem decisões mais qualificadas. Em alguns casos, será necessário ampliar a rede. Em outros, melhorar a comunicação. Pode haver situações em que determinado benefício precise ser redesenhado — e outras em que a solução já é adequada, mas permanece desconhecida pelo público.
Gestão baseada em experiência significa justamente transformar esses sinais em decisões.
Do pacote de benefícios para um ecossistema de acesso
A evolução do mercado aponta para uma mudança conceitual importante. Em vez de enxergar os benefícios como uma lista de produtos independentes, empresas podem começar a estruturá-los como um ecossistema de acesso à saúde e ao bem-estar.
Nesse modelo, diferentes soluções cumprem funções distintas e complementares. O usuário consegue compreender quais caminhos possui e escolher aquele mais adequado para sua necessidade, enquanto a organização acompanha resultados e identifica oportunidades de melhoria.
Esse movimento também amplia a responsabilidade dos fornecedores. A qualidade de uma solução passa a ser avaliada não somente pela quantidade de serviços disponibilizados, mas pela facilidade com que os usuários conseguem encontrá-los, compreendê-los e utilizá-los.
Para o setor representado pela ABCS, essa transformação abre uma agenda importante de evolução.
O papel da ABCS na construção de um acesso mais efetivo
O crescimento do mercado de benefícios cria oportunidades, mas também aumenta a necessidade de padrões elevados de transparência, comunicação e experiência. Quanto maior a diversidade de soluções disponíveis, mais importante se torna ajudar empresas e consumidores a compreender suas características e utilizá-las adequadamente.
A ABCS pode contribuir para esse amadurecimento ao estimular boas práticas entre as empresas do setor, fortalecer a educação do mercado e promover discussões que coloquem a experiência do usuário no centro da ampliação do acesso.
O objetivo não deve ser simplesmente disponibilizar mais serviços. O avanço está em fazer com que mais pessoas consigam chegar ao cuidado de que precisam, de maneira compreensível, conveniente e responsável.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para a próxima etapa do mercado de benefícios em saúde: deixar de medir sucesso somente pelo que foi oferecido e começar a olhar com maior atenção para aquilo que efetivamente chegou às pessoas.
Porque, no fim,
um benefício só cumpre plenamente sua função quando deixa de existir apenas no contrato e passa a fazer parte da jornada real de cuidado.










